Trail Longo de S. Mamede

Se há provas perfeitas, esse foi o caso dos 60 km que fiz entre Portalegre e Marvão no sábado passado. Tudo correu de feição. Há muitas pessoas que carregam consigo os troféus das durezas que ultrapassaram mas eu alimento-me de momentos assim.

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Antes da saída, tudo fortissimo

Saímos à meia-noite e tivemos logo contacto com o grande apoio dos portalegrenses, uma constante até Alegrete e em todos os pontos de passagem, indiferentes à hora e ao fresco que fazia. Eu levava três camadas de roupa e muito entusiasmo por estar ali naquele momento, só tinha vontade de abraçar toda a gente e mais as vacas com que nos íamos cruzando no caminho.

Um dos três grandes factores que contribuiram para o bom decorrer nesta prova foi ter levado música nos primeiros 15/20 km. Foi um valente impulso de energia e o ideal para não ouvir a respiração ofegante em resultado do ritmo mais elevado do que o que costumo fazer em provas de trail. Cantava a Lykke Li o I Follow Rivers quando tivemos de atravessar o primeiro ribeiro, com água pelas coxas. A minha coxa esquerda agradeceu, uma vez que foi a queixar-se grande parte da prova, pelo menos até já me doer o corpo todo em sintonia. A partir daí o cordão de corredores foi-se espaçando no percurso, em trilhos largos e estradões, passando alguns cursos de água com lama e pouca ou nenhuma inclinação. Até à primeira grande subida, por volta dos 20 km, foi tudo corrido em passinhos curtos, rápidos e suaves, que tanto prazer me dão. Passei muitos receosos da escuridão e adeptos do footing ao menor indício de desnível, agradecendo mentalmente às muitas horas do esquilo.

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Crédito da imagem: não sei mas obrigada.

Algures a caminho das antenas do alto de S. Mamede, que ficavam mesmo a meio da prova, fui apanhada pela “grande máquina de papar quilómetros”, o Miguel, desorientado com o sono e com a falta de oxigénio no sangue em virtude de ir a tossir como um soldado da guerra das trincheiras. Deu-se o caso de o Miguel em condições miseráveis e eu na minha melhor forma estarmos com um ritmo semelhante, por isso acabámos por fazer grande parte da prova em amena parceria. Íamos alternando, ele à frente, eu à frente, quem começasse primeiro a andar era um ovo podre. Portanto, segundo factor de sucesso foi o impulso de não me deixar ultrapassar por um quase-tuberculoso, o que pode não ter sido a estratégia mais nobre da minha parte mas acho que o saldo foi positivo para ambos.

A noite ia avançando com rapidez e nunca tive sono. Parece que foi pouco depois de fazermos uma longa descida no meio do nevoeiro que saímos para uma zona de pinhal coberta pelo mais maravilhoso céu estrelado de que tenho memória. Apagado o frontal, no silêncio da montanha antes da madrugada, a abóboda pontilhada abraçava-nos com aquela imponência gigante, de pureza matemática, que encaixa o sentido de todas as coisas. O terceiro factor que faltava mencionar tem a ver com isso: apesar das condicionantes, das situações inesperadas (como eu estar a fazer aquela prova porque não cumpri no Piódão), não havia lugar nenhum no mundo onde quisesse mais estar naquele momento do que ali. Com tudo o que treinei nas últimas semanas, com o que ainda quero treinar e preparar para dar o meu melhor no UTAT. A motivação não é tudo, mas quase.

E então, de mansinho, o dia começou a querer dar um ar da sua graça e era tempo de subirmos à Serra Fria, mais ou menos aos 45 km. O chilrear dos passarinhos juntou-se ao cheiro intenso da vegetação para nos proporcionar um amanhecer marvilhoso e dar alento para os últimos quilómetros. As forças nunca faltaram porque fui gerindo bem a hidratação, os electrólitos e as calorias – até testei a técnica do Zach Miller de comer chocolate como se não houvesse amanhã, com a qual me dei bastante bem (além das boleimas, laranjas, café, amendoins, bananas, coca-cola, gomas, barrinhas de cereais, gel de hidratos, obrigada Senhor por me dares um estômago que aguenta tanta mixórdia). A energia que tivemos de ir buscar nos últimos quilómetros escasseou pelas características da prova, sempre muito rolante. Acho que nunca corri, literalmente, tantos quilómetros na vida. A nível cardiovascular e das pernas estava tudo bem mas já eram muitas horas na mesma cadência, sem o descanso de uma subida valente. Ela lá chegou, no fim, no ataque a Marvão. Mordi a língua e olhei para o castelo lá em cima com respeito mas confiança. Um trotezinho final e o sprint da dignidade reconquistada levou-me à meta pouco depois das 9 horas de prova, quase 62 quilómetros após a partida. Missão cumprida, com muita gratidão por tudo o que permitiu que chegasse ali. E grande alegria, mais tarde redobrada ao saber que consegui pela primeira vez chegar a um pódio individual, coisa com que nunca tinha sonhado. Agora é tempo de curar bem o empeno monumental e as pequenas lesões para retomar os treinos com cabeça.

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“Hey Ryan, nice to meet you. I came second in my race, too.” Lata não me falta 😀

 

 

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17 thoughts on “Trail Longo de S. Mamede

  1. Mas que grande prova, parabéns! Excelente texto também, com a dose certa de lamechice ehehe Boa sorte para o blog, está muito giro! Entretanto li por aí que estás com um post em falta 😛

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  2. “quase-tuberculoso das trincheiras”… o meu nome assim arrastado pela lama :). Terá sido das papoilas que vímos pelo caminho?

    Muitos parabéns e obrigado pela boleia!

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    1. Quais papoilas? Eram estevas e giesta 🙂 Eu é que agradeço a boleia e desde já recomendo a toma de ar condicionado a 16 graus lá para Junho, que a Freita também se faz muito bem só com meio pulmão.

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      1. Havia papoilas, claro que havia, para São Mamede parecer um campo na Flandres só faltavam alguns cadáveres ;).

        Na Freita a distância é mais ou menos a mesma, só o desnível e provavelmente a temperatura é que duplicam… para ti “peaners”, lol. Já eu vou precisar da máquina muito bem afinada.

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  3. Vou levar este texto bem decorado e aconchegado num canto do coração para servir de boost nos 46k da Estrela! Obrigada pela partilha Mariana! Bjs. E eu sei que tu mereces todas estas sensações 😊

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  4. Muitos parabéns! Fizeste uma grande prova e este post 48 horas depois está muito bom. Só é pena ter-me aumentado ainda mais a azia de ter sido o meu primeiro DNS. 🙂 Não conhecia aqui este teu canto mas vou comprar a assinatura.

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  5. Tudo bem, com relatos e feitos assim é tudo muito bonito e tal, mas já se viu quem é o ‘menino’ da vizinhança 😀 Mas tudo bem, é tudo um processo e este é um belo desfecho para mais uma etapa de sucesso.

    Força nisso vizinha, agora é sempre a subir com muito (des)nível positivo 🙂

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