A preparação mental

A corrida nos trilhos é o desporto dos factores imponderáveis por excelência. Temos de trabalhar o dobro para conseguir dar conta do previsível e ter margem de manobra para o imprevisível. Quem não gosta de surpresas faz melhor em escolher outra actividade. Não gosto de surpresas, sujeito-me. Encaro o desconhecido com humildade. Não sou fisicamente hábil nem forte. Tenho de compensar por outro lado. A componente psicológica do meu treino tem os objectivos-chave de aumentar 1) a motivação; 2) a confiança; e controlar/canalizar 3) a ansiedade.

Tenho vontade de treinar todos os dias. A motivação a que me refiro é durante as provas, a voz que tem de convence-me que a Mariana que manda ali é a que quer passar a meta e não a que rezinga nos períodos menos fofinhos da prova. Acabar uma prova longa exige a mesma abnegação de muitas tarefas que tenho de completar na vida profissional. Uma das minhas “batotas mentais” preferidas é pensar que ao menos não estou a preencher células e células de Excel enquanto me afundo na lama; e, claro, que ao menos não estou a passar horas e horas com os pés enfiados na lama quando tenho de passar semanas a preencher folhas de cálculo.

A confiança é o nosso segundo par de pernas. Cada um a adquire de diferentes maneiras, comigo é através do treino consistente. Treinar, treinar, treinar. Como agora não tenho metas de ritmo, é difícil determinar objectivamente os resultados do treino mas se estou a sentir-me bem e as subidas custam menos, em equipa que ganha não se mexe. Já experimentei registar os treinos em aplicações com esse intuito mas acabei por lesionar-me à custa da fuçanguice.

A ansiedade é um problema com que lido imediatamente antes das provas. Causa-me insónias, amplia-me a percepção das dores, torna-me insuportável de aturar. O Matt Fitzgerald diz que não devemos lutar contra isso mas permitir que se torne um incentivo. ‘Tá bem abelha. O que é que ajuda mesmo? Relativizar a importância da prova. Uma prova é só uma prova, é parvoíce dar-lhe tanto relevo. A menos que seja uma prova para a qual andamos há um ano a preparar-nos. Num ambiente em que nunca corremos. Sem sabermos como o nosso corpo vai reagir. Onde desistir não é uma opção. Ai. Pode ser que a altitude leve a um certo estado zen. O que sem dúvida ajuda é a empatia dos outros corredores, o saberem o que estou a sentir e vice-versa. Sofrer em conjunto custa menos, desfrutar em conjunto é melhor, ter medo em conjunto é menos acutilante. Mesmo num desporto em que, verdade seja dita, somos nós sozinhos contra a montanha. E a montanha vence sempre.

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