A estreia

Faz hoje um ano que me estreei na distância ultra, no Louzan Ultra Trail. Diz que, desde então, passaram quase 2500 km. Ganhei experiência e sobretudo respeito pelos trilhos, quer nos períodos de treino, quer nos de paragem. O entusiasmo não esmoreceu nem um pouco. Às vezes pergunto-me durante quantos anos irei andar por estas lides, assim colabore o corpinho. Enquanto valer a pena, lá estarei a pôr um pé em frente ao outro.

Há um ano foi assim:

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“Estás de rastos, não?”
Não estou de restos, não. E isso deve-se em grande medida ao treino. Com treino, tudo se faz. E aproveito já para agradecer a todos da Hora do Esquilo, essa grande escola de trail e fonte de amizades, com pessoas que nos marcam mesmo sem o saberem.

E agora o breve relato. Foram quase 12 horas. É muito tempo mas passou depressa. A primeira metade da distância foi em lua-de-mel. Ia a apreciar a extrema beleza da serra da Lousã, sem dúvida o sítio mais maravilhoso onde já corri. Apesar da dureza da prova, que era muito, muito técnica (para leigos: tinha de avaliar cada passinho, a atravessar rios, escalar cascatas, fazer descidas com pedras soltas e subidas em que me agarrava com unhas e dentes), sentia-me bem. Fui sempre com um ritmo conservador porque era a minha primeira ultra e queria acabar. Achei que 12 horas de limite chegavam perfeitamente. Ahah. Ia fresca, apesar dos 36ºC, até deixei passar por mim o Carlos Sá só porque ele não está habituado a correr com aquelas temperaturas 😉 Sentia-me mesmo bem, sobretudo depois do abastecimento no Candal, fornecido por dois rapazinhos que me deram beijinhos e gritaram “força Mamã!”. Até houve alguém que me disse “ei, esquila, espera por mim que eu não quero ficar para trás sozinho”. Isto mostra a raça das esquilas 😀 Parei 15 minutos para ‘almoçar’ e esticar as pernas, e fiz-me à terrível subida ao Trevim. Acho que demorei uma hora a escalar um quilómetro. Foi daquelas subidas em que me obriguei a não olhar para trás e a não parar, senão ia dar-me uma coisinha má. Fez-se e pensei “ok, está feito, faltam pouco mais de 10 km”. Mas foi no abastecimento mais adiante que descobri que a organização nos tinha mandado a todos pelo caminho errado logo no início. Ao princípio, disseram que eram mais 5 km, depois já eram 7 km. De cada vez que passava por um abastecimento, descobria que a distância aumentava. Aí fui-me abaixo e fiz a minha pity party. Foi a primeira vez que andei (em zonas corríveis) e comecei a chorar. Telefonei ao Luís porque estava mesmo um caco mas ele deu-me a força de que precisava para recomeçar a correr. Não fazia ideia de quantos quilómetros de faltavam realmente mas não estava preocupada com o fecho da prova porque achei que a organização tinha de ampliá-lo, devido ao erro inicial. Estava muito zangada e só queria acabar, chamei silenciosamente nomes à linda ribeira que tanto gosto me tinha dado passar 11 horas antes. Mas foi só quando a Andreia, uma grande mulher do Norte, se chegou a mim e soltou um F*******, que eu me permiti fazer o mesmo. Estava a precisar!
E agora a parte para chorar: a um quilómetro da meta, vejo os meus três amores. Dizem-me “despacha-te, vão fechar a meta, faltam 8 minutos!” e vêm a correr comigo. Isto, senhores, é amor. Sprintei até à meta feita louca, já não via nada, nem me apercebi de onde estava a meta até lhe estar a passar por baixo, e ACABEI! 3 minutos depois, fecharam o portico. Ahhh, o alívio!
Já passo à crítica sobre isso mas antes não quero deixar de agradecer a todos da organização que trabalharam bem. Ao senhor que foi atrás de mim de mota (yeah, I’m that fast) para me avisar que não era por ali. Às meninas que me encheram os depósitos de água. Ao voluntário a quem respondi torto, no ultimo abastecimento, mas não deixou de me pôr uma mão no ombro, olhar-me nos olhos e dizer-me que eu ia conseguir.
A crítica: é pá, 9 km a mais custam. Mas o que custa mesmo é não terem assumido a responsabilidade e terem fechado a meta. Houve três amigos da Hora do Esquilo que passaram pouco depois de mim e não foram qualificados. Não se faz. E outra crítica, menor: os abastecimentos. Mais de 50 km a amendoins, fruta, batatas fritas e gomas é um bocado limitado. Só pedia uma sopinha ao almoço. E isotónico. Se não tive problemas de hidratação foi porque levei um litro de isotónico, que acabei por diluir, e o meu fantástico tamarindo com açúcar e sal (viva o supermercado Chen!).
Hoje já me passou a zanga e sinto-me muito feliz por esta conquista. Superei-me fisicamente (12 horas a correr, a sério??) e sobretudo psicologicamente. Acho que é isso que faz uma prova ultra: vai sempre haver qualquer coisa que nos contraria, aquilo não é para gente mimada. É preciso continuar. Fazer a minha primeira prova ultra naquele local, com a companhia que tive, foi sem dúvida uma experiência inesquecível. Venha a próxima!

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