Lidar com um lesionado: um manual

laesa cursor é um animal vertebrado da família dos athletae, que habita diversas regiões do planeta, inclusive os ecossistemas mais hostis. Ao passo que outras espécies da mesma família são seres amistosos, de trato fácil (desde que tenham alimento e possibilidade de treinar), o laesa cursor, conhecido pelos nomes vulgares de “lesionado” ou “coxo”, é um ser que requer alguns cuidados especiais, sob pena de conhecer na pele a sua faceta mais perigosa. Em condições perfeitas, o lesionado seria adormecido durante todo o período de repouso, mantendo-se a alimentação por via intravenosa e o trabalho muscular por electro-estimulação, de maneira a que ele pudesse acordar harmoniosamente, em forma, sem fome, bem disposto, tendo sonhado com as melhores provas do seu historial desportivo.

Na impossibilidade de reunir essas condições, a abordagem à espécie pode ser facilitada mediante determinadas tácticas, enfatizando-se a importância de não piorar a sua condição com os comentários errados.

Exemplos de procedimentos correctos:

  1. Afagar-lhe o ego. Mas sem referência directa à boa forma;
  2. Oferecer-lhe petiscos. Dos que não engordam. O lesionado consegue sentir o tecido adiposo a florescer nas regiões onde antes se encontrava o músculo;
  3. Não mencionar o assunto “corrida” a menos que o mesmo seja abordado pelo próprio;
  4. Idem para o assunto “lesão”;
  5. Distraí-lo com passeios, livros, filmes, música do seu agrado, desde que não versem sobre os dois temas supracitados.

 

Exemplos de procedimentos incorrectos:

  1. Fazer afirmações como “exageras nos treinos, agora queixa-te”, “que bom, aproveitas para descansar”, “a corrida não dá saúde nenhuma”, ou “devias comer X, Y, Z, que faz bem aos ossos”;
  2. Perguntar se tem ido treinar;
  3. Sugerir que a corrida é um assunto menor e que não há razão para estar de trombas;
  4. Sair para treinar à vista desarmada. Se tiver mesmo de treinar, no regresso, entre rapidamente para o duche e faça desaparecer o equipamento. Em caso de interpelação, diga que não estava grande dia para a prática da corrida.
  5. A menos que já tenha sido laesa cursor ou que seja profissional de saúde com conhecimento de causa, não proponha mezinhas ou outras abordagens terapêuticas. Nenhumas. Não interessa se a sua prima/avó/vizinha/padeira foi a um endireita muito bom. O lesionado comerá as suas boas intenções entaladas num papo-seco. E a seguir morde-lhe a perna, para a sobremesa.

Em suma, será sempre prudente abordar o laesa cursor com algumas reservas. Trata-se de um animal selvagem, ferido. Tem reacções imprevisíveis mas, havendo bom prognóstico, é de esperar que ele se afeiçoe a quem dele bem cuida, recompensando os seus esforços assim que possa voltar a correr em liberdade.

 

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