Distensão nos isquiotibiais: o que diz a ciência

Como em tudo o que envolve este tema tão em voga que é a corrida, o que não falta é informação e contra-informação sobre o problema das lesões, e especificamente sobre as distensões musculares. Mesmo no seio da comunidade científica há muita investigação sobre a matéria mas as conclusões quanto a causas, tratamento, prevenção e reincidência são limitadas. Se assim não fosse, já nenhum futebolista profissional tinha de passar por isto – é verdade, arranjei uma lesão típica de futebolista. Dos 337 artigos que a PubMed sugere se procurarmos informação sobre distensões dos isquiotibiais, e que eu tenho aproveitado para ler nas mais de 500 horas que já levo sem calçar os ténis,

[pausa para revirar de olhos de quem lê isto porque googlou “lesão + isquiotibiais” e descobriu agora que sou uma exagerada do piorio]

há muito material interessante sobre a matéria. Infelizmente nenhum dos artigos diz para tomar qualquer coisa ou fazer um exercício qualquer que me cure milagrosamente em segundos. Mesmo assim, aqui vão alguns pontos interessantes e que poderão ser úteis a quem venha a passar pelo mesmo.

Se as causas imediatas desta lesão estão relativamente bem delineadas – acelerações bruscas, derivando do tipo de exercício executado e/ou de um aumento repentino na intensidade do treino (olá, séries no Campo Grande!), aquilo que torna uns indivíduos mais susceptíveis do que outros é menos consensual. Freckleton e Pizzari (2013) fizeram uma revisão da literatura sobre a matéria e concluíram que as únicas variáveis estatisticamente significativas correlacionadas com este tipo de lesão são a idade, o pico de torque[1] e a ocorrência prévia de lesões nos isquiotibiais.

Para a million-dollar question do quando vou ficar boa não há grandes luzes. Guillodo et al (2014) referem que os melhores preditores para o tempo de recuperação são a intensidade da dor [dou-lhe um 3, de 0 a 10], a ocorrência de um pop! aquando da ruptura [não], dor durante as actividades diárias por mais de 3 dias  [sim…], edema [não] e limitação de mais de 15° na amplitude de movimento [não]. O meu caso não é claro, portanto.

Sobre a reabilitação, Tyler, Schmitt, Nicholas e McHugh (2015) chamam a atenção para a importância de cumprir um protocolo de fortalecimento muscular excêntrico. Na amostra de atletas lesionados que acompanharam ao longo de dois anos, todos os casos de reincidência foram indivíduos que regressaram à actividade normal sem fazerem este tipo fortalecimento muscular.

O problema da reincidência é expressivo, como demonstram Sherry, Johnston e Heiderscheit (2015) [tradução minha]: “cerca de 1 em 3 lesões dos isquitibiais terão reincidência, muitas delas nas primeiras duas semanas de regresso aos treinos. Esta elevada taxa de reincidência pode dever-se à combinação de uma reabilitação ineficaz com a decisão inadequada de regresso ao treino”. Pudera, quem é que não tem pressa em voltar a correr?

Valle et al (2015) são mais específicos na proposta de um protocolo de reabilitação. Referem a necessidade de apostar na combinação de exercícios de extensão da anca e flexão do joelho com trabalho de força (isométrico, concêntrico e excêntrico), assim que possível, fundamentais para evitar a perda de força e de amplitude muscular. Ou seja, cautela no regresso ao trabalho mas nada de tirar férias prolongadas.

Resta saber o que diz o ortopedista na quinta-feira, depois de olhar para o relatório da ressonância magnética. Posso ser a aluna mais aplicada nesta cadeira de Hamstring Strain 101 mas o senhor é capaz de saber um bocado mais sobre o assunto.

[1] O pico de torque representa o ponto de maior torque na amplitude de movimento; o torque ou momento de força representa o resultado da força aplicada num ponto multiplicada pela distância do ponto de aplicação dessa força ao centro de rotação do eixo de movimento, ou seja, T = F x d, medida em newton-metro (Nm).

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7 thoughts on “Distensão nos isquiotibiais: o que diz a ciência

  1. Demasiados gajos estrangeiros a opinar neste texto, mas pronto como dedicaram tempo e estudo, aceita-se. Não sei bem o que te diga, porque até agora as lesões que tive a correr não foram impeditivas ou, enquadrando-as, consegui que fossem sendo diluídas por ajustes no treino. Se fosse a falar do basket, seria um caso completamente diferente, com muitos erros que, por exemplo, aumentaram a minha propensão para entorses no lado interior dos tornozelos.

    Em relação ao encontro com o ortopedista, espero que te aconteça o mesmo que ao mini cidadão lá de casa hoje. Depois de dois dias a recusar-se a gatinhar pelo que pareciam ser um determinado tipo de dores nos joelhos/pernas e febre que podia ou não estar associada, hoje decidimos ir ver de medicina chinesa para o senhor. Isto depois de no dia de ontem haver todo um dia de regabofe no hospital em que nada foi detectado, nem com ecografias e ortopedistas a avaliar se o seu mini jogo de ancas havia influenciado a situação.

    Chegámos ao consultório, encontramos um terapeuta chinês que conhecemos, pergunta o que se passa com ele, enquanto esperamos pela médica. ‘Ah, recusa-se a gatinhar, não põe os joelhos no chão, dores nas pernas, etc’ – o senhor acena a cabeça e diz que vai falar com a médica.
    Dois segundos mais tarde, criança insiste em sair do meu colo, quer andar pela minha mão na sala de espera e desata de gatinhar tipo chita sala fora. Satisfeito, mas ao mesmo tempo estupefacto, olho para o corredor lá ao fundo e médica e terapeuta olham para mim… ‘Ok, mais uns pais doidos’.

    Durante toda a consulta não parou um segundo e gatinhou por todo o consultório…

    Portanto, que tenhas uma consulta assim e te sintas parva a seguir, mesmo sem precisares de gatinhar no consultório do teu ortopedista. Se não for possível, que se abra um caminho a seguir rumo à recuperação 🙂

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  2. Nada mais desejo do que sentir-me parva a seguir 🙂

    Ainda bem que o X está melhor, isso é que importa. Mais um episódio na novela do Faço Figura de Totó pelo Meu Filho e Ainda Pago para Isso, que faz sempre muito sucesso junto de todo o tipo de audiências. Os meus episódios preferidos são quando temos de participar nas festas da escola.

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  3. Mas que raio de ideia a tua, pesquisar e citar fontes!!! Basta dizeres “estudos indicam que” para ficarmos satisfeitos.

    O médico saberá. Ou não…

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    1. Professor Chibanga? Não sei o que é que vocês estudam lá nos cursos de física mas isto é uma revisão de literatura científica ao mais alto nível.

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