Ultra Trail Atlas Toubkal – parte 1

6h00. Madrugada fresquinha, sem vento, frontal aceso, mochila carregada, cinquenta e nove criaturas fluorescentes com ar de atletas a sério mais uma maçarica no meio deles. Oh caramba, e agora? Corre, Mariana.

Nascer do sol no Atlas, fotografia do Rui Pires

Fomos brindados com cerca de um quilómetro plano, para aquecer, seguido da primeira subida em estradão. O UTAT é uma prova muito matreira, começa fácil e vai sempre a piorar. O ideal para mim, portanto. Confirmou-se a informação que tínhamos, os 30 quilómetros iniciais eram bastante acessíveis. Uma corrente de pequenas aldeias onde as crianças acenavam e agarravam-me se tentava dar-lhes hi-fives naquelas mãozinhas minúsculas já tão calejadas. “Bonjour, petite gazelle!” Há lá melhor maneira de enfrentar um desafio destes? Impusémos um ritmo certinho mas exigente para ganharmos alguma folga sobre o primeiro tempo de corte, às 18h30, no 49,5 Km. À passagem por uma povoação por volta do quilómetro 15, torci o pé esquerdo numa levada. Não foi surpresa, este tornozelo andava fragilizado há umas semanas. Nada de incapacitante, continuámos animados. Sobretudo depois de nos cruzarmos com o pai do Kílian Jornet, que perguntou se eu era a Marianne. É possível que o meu ego insuflado tenha contribuído para o levantamento de alguma poeira na descida que se seguiu.

Não foi por excesso de confiança mas sim por imperativo histórico que o abastecimento de água no rio se fez desta forma. Para quem achava que as muitas voltas que dei à piscina não iam servir para nada, aqui está a prova de que tudo se treina.

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Estava fresquinha, sim senhor. Fotografia do Miguel Serradas Duarte

O calor apertava, nunca pesando. Estando rodeados de maciços em vários tons de terra, com um céu muito azul lá em cima, a sensação de liberdade era completa. O tornozelo mariquinhas começou a queixar-se ao ponto de me convencer a tomar um Brufen. A partir daí não deu mais conversa. Chegámos a meio da prova com a folga necessária, abastecemo-nos de pão, Coca-Cola, coragem e vestimos as camadas de roupa para enfrentar a noite que aí vinha. Pela frente tinhamos a primeira “parede” e a zona mais remota do Atlas, cerca 50 quilómetros a abordar em autonomia. Era tempo de subir três picos acima dos 3000 metros de altitude, com a dificuldade acrescida de um piso muito técnico, cheio de pedra solta, em carreiros estreitos e expostos aos elementos. O UTAT ia começar.

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Algures. Fotografia do Rui Pires

A primeira subida foi dura mas gerível. O entardecer trazia uma certa doçura no meio daquela aridez. Há uma espécie de conforto na regularidade da passada nesta fase, em que é preciso manter a atenção à hidratação e à nutrição, vendo pouco mais que o foco do frontal a incidir sobre os pés. Não havia como descurar a concentração, todo o esforço estava voltado para respirar, alternando o trote e o passo sem desperdiçar energia.

Chegámos bem à base de vida dos 68 quilómetros a tempo de jantar umas pratadas de sopa quente e café com muito açúcar. O Luís Afonso foi à pedicure enquanto eu amolecia um pouco as ideias, sentada numa cadeira de campismo. A ideia era seguir caminho rapidamente para não perder o embalo, e foi isso que fizemos. Eram 21h. Uma alma caridosa levou-me às cavalitas na travessia de um curso de água que não apetecia a ninguém naquela altura do campeonato 😉 A noite avançava, porém, e foi aí que as coisas começaram a correr menos bem.

Olhando agora para trás, parece óbvio qual seria o resultado da sobreposição de factores que entraram em jogo naquele momento mas, na hora, há uma espécie de piloto automático que nos faz seguir em frente sem antecipar o que pode correr mal. A tempestade perfeita aconteceu quando o sono, a altitude e as condições atmosféricas levaram a que estivesse perto dos 3700 metros de altitude às 3h da manhã, com um vento gelado que deve ter baixado a temperatura abaixo dos zero graus. Depressa percebi que não levava protecção térmica necessária. Erro de principiante e vício de minimalista. O problema é que estas falhas são maçadoras em circunstâncias normais mas podem ser fatais em alta montanha. O Atlas revelou aqui a sua verdadeira enormidade, perante a qual eu demonstrei a minha inexperiência. Será que ia conseguir carregar o gigante aos ombros ou acabaria esmagada pela montanha?

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