Alcains Trail Camp

A convite do grande mister Didier Valente, juntei-me neste fim-de-semana a mais de uma vintena de adeptos da corrida nos trilhos para um estágio em duas etapas na zona da Serra da Estrela e da Serra da Gardunha. O plano era fazer 50 km com 3500m de D+ no sábado, na Estrela, e outros 30 km com 1500m de D+ para descomprimir na Gardunha, no domingo. Plano demasiado ambicioso para alguém como eu que não tem treinado nada de jeito há umas boas semanas, ponto assente. Decidi embarcar na aventura e deixar que fosse o diálogo entre o trilho e o meu corpo a determinar até onde fazia sentido ir.

Depois da pernoita no pavilhão da Escola Secundária de Alcains (finalmente estreei-me em solo duro, adeus vida de princesa dos trilhos), a alvorada foi às 5h porque ainda nos esperava mais de uma hora de estrada até ao ponto de saída, no Alvoco. Conseguimos começar ainda pela fresquinha e descer até à cota dos 400 m de altitude para “ir buscar o desnível”.

A partir daí não havia muito que saber, era subir até à torre. O petisco incluiu o quilómetro vertical do Armando Teixeira, que se fez muito bem, a ritmo constante e à bastonada. Na torre, a vista estava meio encoberta e o vento fresquinho causava demasiado desconforto às atletas magricelas e ensopadas em suor (alerta para a hipotermia no UTAT) mas deu para comer qualquer coisa e seguir caminho até a uma muito feliz desorientação, que nos levou até à Lagoa do Covão das Quelhas. Impunha-se um mergulho e que bem que ele soube.

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Era tempo de fazer a descida da garganta de Loriga, sobre a qual só tinha ouvido maravilhas e horrores. A paisagem é deslumbrante, esta fotografia não lhe faz justiça.

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Faça-se a ressalva que foi tirada à pressa porque os meus companheiros de caminho iam cheios de medo dos cães (depois de sobrevivermos às vacas e às cabras… Perigosíssimas) e fomos saindo de fininho daquela zona. O piso daquela região, como é sabido, é pedrícola e irregular. Apesar dos cuidados, torci um pé por volta do quilómetro 20. Ligaram-me o tornozelo e consegui seguir caminho sem grandes dores mas ficou decidido que teria de encurtar a jornada. Chegando a Loriga, afinfei uma bela bifana e fui fazer a digestão para a maravilhosa piscina fluvial, com água cristalina da nascente e uma vista esmagadora para o maciço de granito da garganta. O regresso ao Alvoco foi sossegado, pela estrada, para não estragar mais o tornozelo.  É claro que tive de dar mais um mergulho na piscina do Alvoco porque ainda não tinha nadado o suficiente naquele dia.

Domingo. O tornozelo ligado parecia querer colaborar, toca de seguir até Castelo Novo para atacar a Serra da Gardunha. Subimos a encosta sul por estradão, eu sempre no meu ritmo sereno a tentar não perder muito os outros de vista, e fomos percorrendo a crista dos montes no meio de uma paisagem menos dramática do que a da Estrela mas nem por isso menos bonita (aqui não tenho a desculpa dos cães, é só falta de jeito para a fotografia).

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As marcações de caminhada eram menos fiáveis do que no percurso do dia anterior por isso foi com muita satisfação que acompanhámos o Luís Matos Ferreira, com a sua preciosa experiência. Fomos contornando a encosta oeste e descendo junto a um ribeiro onde, quer dizer,

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Não havia como não mergulhar, não é? A banhoca foi preciosa porque o calor já apertava e os quilómetros dos dois dias iam fazendo mossa nas pernas. Depois, eu nem queria mas quando o nosso grande timoneiro ad hoc decidiu que devíamos parar em Louriçal do Campo para beber umas minis e comer uns tremoços, não havia como recusar. Registo com agrado mais esta estreia nos trilhos. De alguma maneira, a cabeça zonza foi o impulso que faltava para atacar a última subida sempre a trote debaixo da torreira do sol. Já só queríamos chegar e, claro, atirarmo-nos para a piscina fluvial de Castelo Novo. Toda esta água e mais os pirolitos que andei a engolir na natação, enquanto não pude correr, vão bem gravados na memória quando estiver a tomar pó às colheradas na paisagem lunar do Atlas.

Bom, a brincar, a brincar, foram 70 km de treino com mais de 4000 D+ (ainda não descarreguei os tracks para saber os números ao certo). O tornozelo está sensível mas não inchou nem dói. Os isquiotibiais portaram-se como deve ser. O empeno de hoje é suave. O ritmo é tudo. A continuação dos treinos nas próximas semanas será muito condicionada e caótica até à prova, porque entretanto a minha vida pessoal levou uma grande volta. Espero conseguir completar o UTAT, apesar de tudo. É um desejo e um projecto que sempre assumi com seriedade. Logo se vê o que é possível fazer.

Ponto de situação

Faltam 79 dias para o UTAT, pouco mais de 11 semanas, ou 9 semanas de treino + 2 de recuperação.

Acabo de fazer tratamento de electrochoques, posso dizer que sinto a perna a 100%. É altura de regressar à corrida a valer, apesar de já ter ido dar umas voltinhas que me deram muito prazer. Custa tanto estar longe dos trilhos, espero que a próxima paragem seja só a partir da segunda semana de Outubro.

Qual a abordagem a partir de agora? Treino lento, longo, suave, com acréscimo progressivo de desnível. Tenho de arranjar maneira de fazer mais treinos em Sintra, ainda não sei bem como consigo dar a volta à logística. Mas terá de haver uma maneira. Também quero muito continuar com a natação, que me ajudou tanto. Continuo o reforço muscular e passo os alongamentos para a tarde/noite. O corpo quente reage melhor a esse tipo de trabalho, sem esticar nada em demasia.

Daqui a 3 semanas vou de férias e vou andar pelo Norte. Tenho de ver o que há de percursos de trail por essas zonas, montanhas não faltarão. Pode não ser fácil manter a consistência nos treinos nessa altura mas não estou preocupada. Dêem-me um bom mês de trabalho antes do período de taper e a coisa faz-se. As medalhas ficam para a próxima 😉

É um pássaro? É um avião? É uma instalação artística de qualidade duvidosa?

Não, é a minha coxa esquerda. Com tudo o que a constitui: ossos, tendões, músculos, gordura e pele. E o que é que há de errado na imagem? Aparentemente, nada.

Depois de um exame minucioso e de olhar para a ressonância magnética, o ortopedista disse que não encontrava sinais de ruptura, ao contrário do que tinha diagnosticado a médica que me viu inicialmente. É possível que seja uma tendinite, mas também não há grantes certezas. Mandou-me fazer fisioterapia e natação, podendo regressar aos treinos em breve, com calma.

Fiquei um bocado na mesma. A dor continua, se bem que mais suave. Fiz S. Mamede com esta sensação, não é impeditiva de nada, não queria era agravar algum problema que pudesse comprometer-me a longo prazo. Vou então seguir estas indicações e, se não passar ou se se agravar com o regresso aos treinos, logo procuro outra abordagem. De qualquer forma, acho que são boas notícias 🙂

Distensão nos isquiotibiais: o que diz a ciência

Como em tudo o que envolve este tema tão em voga que é a corrida, o que não falta é informação e contra-informação sobre o problema das lesões, e especificamente sobre as distensões musculares. Mesmo no seio da comunidade científica há muita investigação sobre a matéria mas as conclusões quanto a causas, tratamento, prevenção e reincidência são limitadas. Se assim não fosse, já nenhum futebolista profissional tinha de passar por isto – é verdade, arranjei uma lesão típica de futebolista. Dos 337 artigos que a PubMed sugere se procurarmos informação sobre distensões dos isquiotibiais, e que eu tenho aproveitado para ler nas mais de 500 horas que já levo sem calçar os ténis,

[pausa para revirar de olhos de quem lê isto porque googlou “lesão + isquiotibiais” e descobriu agora que sou uma exagerada do piorio]

há muito material interessante sobre a matéria. Infelizmente nenhum dos artigos diz para tomar qualquer coisa ou fazer um exercício qualquer que me cure milagrosamente em segundos. Mesmo assim, aqui vão alguns pontos interessantes e que poderão ser úteis a quem venha a passar pelo mesmo.

Se as causas imediatas desta lesão estão relativamente bem delineadas – acelerações bruscas, derivando do tipo de exercício executado e/ou de um aumento repentino na intensidade do treino (olá, séries no Campo Grande!), aquilo que torna uns indivíduos mais susceptíveis do que outros é menos consensual. Freckleton e Pizzari (2013) fizeram uma revisão da literatura sobre a matéria e concluíram que as únicas variáveis estatisticamente significativas correlacionadas com este tipo de lesão são a idade, o pico de torque[1] e a ocorrência prévia de lesões nos isquiotibiais.

Para a million-dollar question do quando vou ficar boa não há grandes luzes. Guillodo et al (2014) referem que os melhores preditores para o tempo de recuperação são a intensidade da dor [dou-lhe um 3, de 0 a 10], a ocorrência de um pop! aquando da ruptura [não], dor durante as actividades diárias por mais de 3 dias  [sim…], edema [não] e limitação de mais de 15° na amplitude de movimento [não]. O meu caso não é claro, portanto.

Sobre a reabilitação, Tyler, Schmitt, Nicholas e McHugh (2015) chamam a atenção para a importância de cumprir um protocolo de fortalecimento muscular excêntrico. Na amostra de atletas lesionados que acompanharam ao longo de dois anos, todos os casos de reincidência foram indivíduos que regressaram à actividade normal sem fazerem este tipo fortalecimento muscular.

O problema da reincidência é expressivo, como demonstram Sherry, Johnston e Heiderscheit (2015) [tradução minha]: “cerca de 1 em 3 lesões dos isquitibiais terão reincidência, muitas delas nas primeiras duas semanas de regresso aos treinos. Esta elevada taxa de reincidência pode dever-se à combinação de uma reabilitação ineficaz com a decisão inadequada de regresso ao treino”. Pudera, quem é que não tem pressa em voltar a correr?

Valle et al (2015) são mais específicos na proposta de um protocolo de reabilitação. Referem a necessidade de apostar na combinação de exercícios de extensão da anca e flexão do joelho com trabalho de força (isométrico, concêntrico e excêntrico), assim que possível, fundamentais para evitar a perda de força e de amplitude muscular. Ou seja, cautela no regresso ao trabalho mas nada de tirar férias prolongadas.

Resta saber o que diz o ortopedista na quinta-feira, depois de olhar para o relatório da ressonância magnética. Posso ser a aluna mais aplicada nesta cadeira de Hamstring Strain 101 mas o senhor é capaz de saber um bocado mais sobre o assunto.

[1] O pico de torque representa o ponto de maior torque na amplitude de movimento; o torque ou momento de força representa o resultado da força aplicada num ponto multiplicada pela distância do ponto de aplicação dessa força ao centro de rotação do eixo de movimento, ou seja, T = F x d, medida em newton-metro (Nm).

Quando só sobra a vontade

 

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Trabalha-se o core e nada-se só com os braços.

Para além de ir ficar com um muito sensual corpo em V, isto de passar uma hora a segurar uma prancha entre as pernas tentando engolir o mínimo de pirolitos vai-me fortalecer de tal forma os adutores que, em breve, serei capaz de quebrar nozes com as coxas. O que é muito útil, sou grande apreciadora de frutos secos.

Enquanto puder mexer um dedo mindinho que seja, treinarei.

Primeiras lições

Ando a ler vários livros de auto-ajuda e a consultar um painel de life coaches para dar a volta por cima a este contratempo. Não ando nada, que disparate, a melancolia é que me afina o sarcasmo. Os meus filhos garantem que eu pareço cada vez mais a encarnação da Raven dos Teen Titans mas já lhes expliquei que não, a Raven é a filha recém-nascida do Scott Jurek. Seja como for, o roxo não me favorece.

Bom, talvez não seja inverdade que ando chateada que nem um peru por estar parada. Mesmo assim, faço por encontrar luzes ao fundo do túnel. Pelo menos enquanto não sair do túnel da ressonância magnética com um prognóstico concreto. A ver se aprendo qualquer coisa com esta experiência, já agora.

Confiar na intuição. Lembro-me de suspeitar mesmo antes de S. Mamede que isto podia ser distensão muscular. Não me arrependo de ter ido à prova, nem pensar, mas vou levar estes alertas mais a sério.

Alongar também pode estragar. O músculo rebentou por excesso de carga mas o estrago maior foi nos alongamentos em casa. Como é que sei? Cf. ponto anterior.

Esquecer a velocidade. Quando tentei treinar velocidade com ataque de calcanhar, arranjei a pata de ganso. Quando tentei treinar velocidade com ataque de dianteira, porque a minha passada mudou entretanto, rompi o bícepe femoral. Mesmo integrando reforço muscular e alongamentos no treino. O ganho de velocidade não compensa, de todo, os tempos de recuperação destas lesões e as oportunidades perdidas. Lenta serei.

Valorizar cada treino e cada prova. Bem sei que este princípio só dura enquanto nos lembramos de como é mau estar parado, até ao momento em que voltamos a sentir-nos eufóricos, invencíveis – o que também é parte do negócio. Mas o momento em que se me quebra o coração por não ter feito o Piódão como deve ser é este: quando voltar a correr é uma miragem de contornos indefinidos.

Lidar com um lesionado: um manual

laesa cursor é um animal vertebrado da família dos athletae, que habita diversas regiões do planeta, inclusive os ecossistemas mais hostis. Ao passo que outras espécies da mesma família são seres amistosos, de trato fácil (desde que tenham alimento e possibilidade de treinar), o laesa cursor, conhecido pelos nomes vulgares de “lesionado” ou “coxo”, é um ser que requer alguns cuidados especiais, sob pena de conhecer na pele a sua faceta mais perigosa. Em condições perfeitas, o lesionado seria adormecido durante todo o período de repouso, mantendo-se a alimentação por via intravenosa e o trabalho muscular por electro-estimulação, de maneira a que ele pudesse acordar harmoniosamente, em forma, sem fome, bem disposto, tendo sonhado com as melhores provas do seu historial desportivo.

Na impossibilidade de reunir essas condições, a abordagem à espécie pode ser facilitada mediante determinadas tácticas, enfatizando-se a importância de não piorar a sua condição com os comentários errados.

Exemplos de procedimentos correctos:

  1. Afagar-lhe o ego. Mas sem referência directa à boa forma;
  2. Oferecer-lhe petiscos. Dos que não engordam. O lesionado consegue sentir o tecido adiposo a florescer nas regiões onde antes se encontrava o músculo;
  3. Não mencionar o assunto “corrida” a menos que o mesmo seja abordado pelo próprio;
  4. Idem para o assunto “lesão”;
  5. Distraí-lo com passeios, livros, filmes, música do seu agrado, desde que não versem sobre os dois temas supracitados.

 

Exemplos de procedimentos incorrectos:

  1. Fazer afirmações como “exageras nos treinos, agora queixa-te”, “que bom, aproveitas para descansar”, “a corrida não dá saúde nenhuma”, ou “devias comer X, Y, Z, que faz bem aos ossos”;
  2. Perguntar se tem ido treinar;
  3. Sugerir que a corrida é um assunto menor e que não há razão para estar de trombas;
  4. Sair para treinar à vista desarmada. Se tiver mesmo de treinar, no regresso, entre rapidamente para o duche e faça desaparecer o equipamento. Em caso de interpelação, diga que não estava grande dia para a prática da corrida.
  5. A menos que já tenha sido laesa cursor ou que seja profissional de saúde com conhecimento de causa, não proponha mezinhas ou outras abordagens terapêuticas. Nenhumas. Não interessa se a sua prima/avó/vizinha/padeira foi a um endireita muito bom. O lesionado comerá as suas boas intenções entaladas num papo-seco. E a seguir morde-lhe a perna, para a sobremesa.

Em suma, será sempre prudente abordar o laesa cursor com algumas reservas. Trata-se de um animal selvagem, ferido. Tem reacções imprevisíveis mas, havendo bom prognóstico, é de esperar que ele se afeiçoe a quem dele bem cuida, recompensando os seus esforços assim que possa voltar a correr em liberdade.

 

A estreia

Faz hoje um ano que me estreei na distância ultra, no Louzan Ultra Trail. Diz que, desde então, passaram quase 2500 km. Ganhei experiência e sobretudo respeito pelos trilhos, quer nos períodos de treino, quer nos de paragem. O entusiasmo não esmoreceu nem um pouco. Às vezes pergunto-me durante quantos anos irei andar por estas lides, assim colabore o corpinho. Enquanto valer a pena, lá estarei a pôr um pé em frente ao outro.

Há um ano foi assim:

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“Estás de rastos, não?”
Não estou de restos, não. E isso deve-se em grande medida ao treino. Com treino, tudo se faz. E aproveito já para agradecer a todos da Hora do Esquilo, essa grande escola de trail e fonte de amizades, com pessoas que nos marcam mesmo sem o saberem.

E agora o breve relato. Foram quase 12 horas. É muito tempo mas passou depressa. A primeira metade da distância foi em lua-de-mel. Ia a apreciar a extrema beleza da serra da Lousã, sem dúvida o sítio mais maravilhoso onde já corri. Apesar da dureza da prova, que era muito, muito técnica (para leigos: tinha de avaliar cada passinho, a atravessar rios, escalar cascatas, fazer descidas com pedras soltas e subidas em que me agarrava com unhas e dentes), sentia-me bem. Fui sempre com um ritmo conservador porque era a minha primeira ultra e queria acabar. Achei que 12 horas de limite chegavam perfeitamente. Ahah. Ia fresca, apesar dos 36ºC, até deixei passar por mim o Carlos Sá só porque ele não está habituado a correr com aquelas temperaturas 😉 Sentia-me mesmo bem, sobretudo depois do abastecimento no Candal, fornecido por dois rapazinhos que me deram beijinhos e gritaram “força Mamã!”. Até houve alguém que me disse “ei, esquila, espera por mim que eu não quero ficar para trás sozinho”. Isto mostra a raça das esquilas 😀 Parei 15 minutos para ‘almoçar’ e esticar as pernas, e fiz-me à terrível subida ao Trevim. Acho que demorei uma hora a escalar um quilómetro. Foi daquelas subidas em que me obriguei a não olhar para trás e a não parar, senão ia dar-me uma coisinha má. Fez-se e pensei “ok, está feito, faltam pouco mais de 10 km”. Mas foi no abastecimento mais adiante que descobri que a organização nos tinha mandado a todos pelo caminho errado logo no início. Ao princípio, disseram que eram mais 5 km, depois já eram 7 km. De cada vez que passava por um abastecimento, descobria que a distância aumentava. Aí fui-me abaixo e fiz a minha pity party. Foi a primeira vez que andei (em zonas corríveis) e comecei a chorar. Telefonei ao Luís porque estava mesmo um caco mas ele deu-me a força de que precisava para recomeçar a correr. Não fazia ideia de quantos quilómetros de faltavam realmente mas não estava preocupada com o fecho da prova porque achei que a organização tinha de ampliá-lo, devido ao erro inicial. Estava muito zangada e só queria acabar, chamei silenciosamente nomes à linda ribeira que tanto gosto me tinha dado passar 11 horas antes. Mas foi só quando a Andreia, uma grande mulher do Norte, se chegou a mim e soltou um F*******, que eu me permiti fazer o mesmo. Estava a precisar!
E agora a parte para chorar: a um quilómetro da meta, vejo os meus três amores. Dizem-me “despacha-te, vão fechar a meta, faltam 8 minutos!” e vêm a correr comigo. Isto, senhores, é amor. Sprintei até à meta feita louca, já não via nada, nem me apercebi de onde estava a meta até lhe estar a passar por baixo, e ACABEI! 3 minutos depois, fecharam o portico. Ahhh, o alívio!
Já passo à crítica sobre isso mas antes não quero deixar de agradecer a todos da organização que trabalharam bem. Ao senhor que foi atrás de mim de mota (yeah, I’m that fast) para me avisar que não era por ali. Às meninas que me encheram os depósitos de água. Ao voluntário a quem respondi torto, no ultimo abastecimento, mas não deixou de me pôr uma mão no ombro, olhar-me nos olhos e dizer-me que eu ia conseguir.
A crítica: é pá, 9 km a mais custam. Mas o que custa mesmo é não terem assumido a responsabilidade e terem fechado a meta. Houve três amigos da Hora do Esquilo que passaram pouco depois de mim e não foram qualificados. Não se faz. E outra crítica, menor: os abastecimentos. Mais de 50 km a amendoins, fruta, batatas fritas e gomas é um bocado limitado. Só pedia uma sopinha ao almoço. E isotónico. Se não tive problemas de hidratação foi porque levei um litro de isotónico, que acabei por diluir, e o meu fantástico tamarindo com açúcar e sal (viva o supermercado Chen!).
Hoje já me passou a zanga e sinto-me muito feliz por esta conquista. Superei-me fisicamente (12 horas a correr, a sério??) e sobretudo psicologicamente. Acho que é isso que faz uma prova ultra: vai sempre haver qualquer coisa que nos contraria, aquilo não é para gente mimada. É preciso continuar. Fazer a minha primeira prova ultra naquele local, com a companhia que tive, foi sem dúvida uma experiência inesquecível. Venha a próxima!

Paragem à força

Chamemos os bois pelos nomes: estou lesionada.

A dor que sinto na perna esquerda começou em meados de Maio, levei-a a passear a S. Mamede, tirou uns dias de férias depois disso e agora tem regressado sorrateiramente, sendo que cheguei ao ponto de a sentir mesmo deitada, à noite. É tempo de encarar a realidade e parar. Desde terça-feira que não corro. Tenho feito yoga, alongamentos e bicicleta mas decidi hoje parar toda a actividade que envolva o esforço das pernas até ver como isto evolui. Não sei exactamente o que tenho, se é simples contractura muscular ou se já é uma distensão. Não vou inventar. Para já, páro, faço gelo e massagens suaves com anti-inflamatório. Receio que mesmo as massagens com latas de coca-cola gelada não andassem a fazer o bem que imaginava. Daqui a uns dias reavalio a situação e logo vejo se preciso de procurar ajuda profissional.

Implicações imediatas: provavelmente não irei ao Ultra Trail da Serra da Freita. É daqui a 8 dias. Não vou cometer a parvoíce de arriscar se ainda sentir alguma dor, visto que o meu objectivo do ano é já daqui a 3 meses e meio. Vamos ver. Vejo nuvens negras sobre as montanhas do Atlas. Vejo o meu corpo musculado, riscado de arranhões, sarapintado de nódoas negras das quedas, e a dor maior é na alma, por ter de estar parada. Tento não me imaginar a perder a forma tão duramente conquistada. Tento não me imaginar na partida em Oukaïmeden, a acenar aos meus amigos enquanto eu fico a comer as tâmaras mais amargas do continente africano. Tento ter esperança que isto seja um contratempo, que será vencido com paciência e com muito respeito pelo meu organismo, mais do que tenho tido até agora. Mas não é fácil, não há como negar que estou desanimada.

Pelos trilhos da Rocha da Pena

A duas semanas do UTSF2016, o fim-de-semana que passou era a altura certa para o treino-chave de preparação. Queria-se desnível e a simulação possível das condições da prova. Se a Freita consiste em subidas e descidas com pedra solta, sol q.b. e muito matagal para arranhar as pernas, missão cumprida.

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Não, por aqui não há saída. Volta para trás.

No ano passado tinha feito um treino sozinha para aqueles lados, mas saindo de Benafim. Este ano ia juntar-me ao grupo que sairia de Salir, por isso acabei por chegar mais tarde do que planeava, cortando nas quatro horas previstas. Parti sozinha em direcção à Rocha da Pena mas tive dificuldade em encontrar trilhos transitáveis, estava tudo cheio de mato e invariavelmente voltava para trás, acabando por correr muito em alcatrão nessa parte do treino.

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Querias sair do alcatrão? Toma lá calhau.

Terminado o aquecimento, juntei-me ao grupo junto ao complexo desportivo de Salir. As indicações foram dadas, começámos a subir e eu deixei-me ficar para trás a fazer as rampas a trote pachorrento. Não tardou muito que me perdesse do grupo. Sem pastor, sou pior que gado caprino. Da primeira vez, o desgraçado do rapaz da organização do UTRP ainda me foi descobrir. Da segunda vez, adeuzinho e toma lá um queijo. Percebi que não devia ser por ali quando fiz uma subida tão empinada, tão empinada, interminável, que os dois pobres coitados que se lembraram de me seguir já nem falavam. Perco-me mas faço sempre amigos na desgraça. É claro que descer aquilo tudo foi muito pior, parecia que estava a fazer patinagem no gelo. Em muitas zonas o piso era de cascalho solto e era impossível manter uma passada estável, a única solução era a derrapagem controlada. Até ao momento em que se descontrolou e dei uma valente queda, sobre o cotovelo e o ombro. Felizmente sem mais mazelas do que umas nódoas negras e umas esfoladelas.

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Estão a ver ali o caminho à esquerda que de repente desaparece? É a descida.

Perante o ar desanimado dos meus companheiros de perdição, sugeri accionar o modo back to start do GPS. Mesmo assim perdi-me numa viragem 🙂 Lá chegámos, uma lisboeta toda contente com a manhã passada a ver as vistas para as terras de sua mãe e dois algarvios bastante marafados por não terem conseguido completar o percurso do grupo. Com esta brincadeira toda, não consegui registar a totalidade do percurso. Foi uma bela volta e agora é tempo de começar a desacelerar, a ver se não agravo a dor no bícepe femoral, que teima em não passar por completo.

Percurso Rocha da Pena 11Jun16
Primeira parte, para Oeste. Segunda parte, para Nordeste. Terceira parte, para onde Deus quis, sem registo.